Rejeitado Pertencer

Obcecada adormeço todos os dias. Imagino como será acordar contigo sem ser nos mesquinhos sonhos que me acompanham.
Parece que isso nunca vai acontecer, não porque não o desejamos, mas sim porque o queremos demais. Aquele excesso que não permite que eu seja feliz ao teu lado. Aquele excesso que tu me deste ao me dares razão e dizeres que seriamos muito felizes juntos. Não fosse o mais infiel amigo que te acompanha, o medo.
Sei que não sou mais forte que ele, e que choro sempre que ele me confronta. Sei que ele me vence a cada passo dado com segurança. Sei que o meu beijo não é forte o suficiente para o deter. Sei que o calor das tuas mãos a aquecerem as minhas, é só um ensejo que ele decide dar-nos.
Quão bom é esse mesmo momento, em que a tua lágrima foge do teu rosto e me percorre o corpo. Quanta confiança nos traz. A partilha momentânea que apaga tudo o que nos rodeia e nos mete a léguas de todos os que nos querem mal. Somos únicos, num ápice perfeito.
Agarro-te com toda a força. És meu por breves instantes. Segundos que parecem horas e horas que parecem dias. Dias que eu quero transformar em meses e meses que irão parecer anos. Anos que serão apenas uma vida. A nossa.
Soletro ao teu ouvido, todos os tipos de pronomes possessivos. És meu, sou tua, é nosso! E é aí que sorris. Que te deixas levar e sabes que funciona. É automática a forma como deixas que os teus braços me envolvam, como cuidas de mim, como sabes que daí não me é permitido sair. Tornas-te seguro, a pessoa de quem eu gosto e não nego amar.
O meu corpo não nega o calor do teu, mas rapidamente cai e se dilui. Rapidamente sei que é mais um toque ilusório. Uma lágrima cai e desfaz-me de novo. Onde ficou o homem que construí e ensinei a me querer?!
O tempo passa e com ele vem um corpo novo. Formado de sensações irrisórias que eu fiz questão de nos dar. Não, não sou toda-poderosa, não mando eu apenas. Porque és tu, tu que me fazes ser capaz de criar algo novo, de criar aquilo que desejamos, de fornecer o bem-estar de corpos que sozinhos não são nada, são apenas canastros que divagam por prantos e gáudios.
Míseros lamentos que me atormentam por não gostar de os ter em mim. Exíguos sorrisos que me confortam. Temor colossal que te escolta e te faz suspender o sentir. Pausas o desejo e o querer. Sinónimos que me guarnecem e fazem acreditar. Liberta-os.
Encontramo-nos parados lado a lado. A vontade de expressão é muita e vaga. Sem o quê ou porquê. Apenas queremos falar, mas sempre que a boca se abre é apenas para largar o suspiro intenso de quem não sabe, mas sente.
“O quanto gosto de ti!” ingénua e intensa frase, que pode ser prescrita por qualquer ser, que detenha tal capacidade. Mas o apertado e esperado abraço não vem. O sussurro possível, de simples palavras, encadeadas numa proposição tão elementar, desaparece então.
Culpados ou inocentes, feridos ou rejeitados, fiéis ou incrédulos, apáticos ou joviais, juntos ou desunidos, amarrados ou distantes, únicos ou indiferentes, seremos nós e a nós nos pertenceremos.

10 de Janeiro 2010

4 comentários:

  1. Adorei!! Revejo-me nas tuas palavras...
    É óptima a maneira talvez fugaz que escreves.

    Ana Silva

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  2. A tua maneira esquisita de escrever está brutal...

    Conheces aquela sensaçao de ficares a pensar nas palavras??

    Quando no fim de leres um pensamento destes ficas perdido??

    Quando necessitas de gritar para desatar o nó que ficou na tua garganta??

    Pois bem... alta cena

    BAHHHH

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  3. O sono é algo que nos traz um mau estar profundo. Ás vezes temos simplesmente medo do escuro entao nao conseguimos dormir, outras temos medo daquilo que poderá acontecer quando estamos a dormir. Nao deixes que os teus medos tomem conta de ti da mesma forma que o sono te deixa...
    Temos de ser fortes e deixar-nos adormecer sem ter medo...

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